segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A noite inesquecível que não aconteceu


            Estava em uma época da minha vida de pura diversão, havia zero por cento de responsabilidade em mim e o desejo de me tornar adulto era cada vez mais cruel de aceitar. Só em imaginar uma vida como de meu pai e minha mãe sem festas, bebidas e mulheres ficava enjoado, não queria tal responsabilidade para mim, pelo menos não agora.
            Tinha apenas dezessete anos, mas já sabia que depois que entrasse na faculdade nos próximos meses as coisas seriam bem diferentes, minha mãe fazia questão de lembrar que a partir do momento que começasse essa nova fase da minha vida tudo iria mudar. Nada de festas, “curtição” com os amigos, eu teria apenas de me preocupar em me formar para futuramente ganhar dinheiro na área que fosse atuar e ser um profissional bem visto pelo mercado de trabalho, aquele discurso me deixava entediado, imaginando essa vida para mim então, me deixava ainda mais.
            Bem, o fato é que sabia que iria para uma outra cidade estudar no próximo ano que se aproximava tão rápido, tinha que fazer algo inesquecível com meus amigos, algo para ficar marcado em nossas vidas. E isso teria que ser feito não apenas porque essas pessoas que chamava de “amigos” eram legais, e sim porque elas eram muito especiais para mim, éramos praticamente irmãos de alma. Todos esses atributos me fizeram pensar por dias em algo muito divertido para se fazer, no qual fosse ficar em nossas memórias para sempre.
            O destino nos ajudou e as circunstâncias nos proporcionaram uma bela de uma ocasião para realizar um pequeno evento que, apesar de simples, seria muito louco, como era nossa vida na época.
            Naquele tempo namorava Christina, uma bela morena dos olhos brilhantes e dos lábios carnudos que tanto chamava minha atenção, essa mesma havia obtido a responsabilidade de cuidar da casa de uma tia dela que estava viajando, logo que soube daquilo a ideia de fazer nossa “festinha” naquela casa apareceu e da minha cabeça não saiu mais. Porém, Christina não concordou muito com minha ideia a princípio, achou muito perigoso e irracional, mas o pensamento dela mudou logo quando falei olhando em seus olhos e segurando em suas mãos:
- Triste é uma vida que não exista loucuras e emoções.
            No momento pareceu um tanto filosófico, mas aquela citação caiu como uma luva. Os preparativos para a festa começava a partir dali.
            A princípio não me preocupei em já convidar meus melhores amigos da época, ainda queria confirmar tudo. Christina me ajudou muito nesse momento, não demorou para o convite ser lançado, mas vale a pena ressaltar que convidei apenas os amigos mais próximos, convidar um grande número de pessoas não seria uma boa ideia naquela situação.
            Observe abaixo os nomes dos convidados e um pouco do que cada um representava para mim.

Ricardo:
Meu melhor amigo, um cara companheiro, parceiro das tardes de futebol, já tinha uma amizade forte com ele há anos, iria sentir muito falta da sua companhia e das nossas “farras” juntos.

Vanessa:

Conhecia essa maluca a pouco tempo, apesar disso já havia se tornado uma grande amiga para mim. Gostava do mesmo estilo musical que eu (rock and roll), só por esse motivo parecia que éramos amigos há anos.

Karina:

Era a minha amiga mais feliz, ria de tudo e a todo momento. Para ela não tinha tempo ruim, tudo e todos eram motivos para altas e estranhas risadas. Nossa amizade era forte, tinha certeza que iria durar muito tempo, levo-me até a pensar que à vida toda.

Foram esses que resolvi convidar para o pequeno evento que aconteceria daqui a alguns dias, além dos citados havia Christina e eu, é claro. Cinco jovens que iriam ficar uma noite toda aproveitando o que de melhor a vida naquela fase oferece: diversão!
O plano era nos reunir na casa da tia de Christina para assistirmos um terrível filme de terror e beber até todos ficarmos sorridentes como Karina já era, coisas que jovens costumam fazer. Os dias foram passando e a expectativa foi aumentando. Ao contrário do que meus amigos, eu estava vivenciando uma guerra de sentimentos dentro de mim, estava feliz por poder vivenciar esse último momento ao lado deles e ao mesmo tempo muito triste, pois sabia que depois daquele dia ficaria longe de todos aqueles doidos que completavam minha loucura.
Os dias passaram e a hora chegou, quando percebi já estava a poucas horas de passar a última noite daquela minha fase louca ao lado dos meus melhores amigos. Os últimos detalhes ainda estavam sendo acertados, combinamos que cada um daria algo, eu fiquei responsável por dar um refrigerante, Ricardo também, já Vanessa iria dar um litro de Vodka Roscoff e a alcoólatra Karina iria dar mais um litro. Quando vi que o evento seria “pesado” me animei mais ainda e torci apenas para ninguém entrar em coma alcoólico. Para completar os comes e bebes da noite Christina se propões a doar um saco de pipoca (para ser consumido na hora do filme) e mais dois litros de refrigerante (para ser consumido junto com a Vodka).
Tudo estava dando perfeitamente certo até ali, mas no momento de ida para encontrar com o resto do povo passei pela casa de Ricardo e descubro que meu velho amigo não tinha o dinheiro completo para comprar o refrigerante, foi um facada no coração aquilo, o cidadão trabalhava e não tinha cinco reais para comprar um misero refrigerante, ali percebi como o Brasil andava mal das pernas. Resolvemos comprar com o dinheiro que Ricardo tinha dois pacotes de bolacha (estávamos com fome), a ideia era levar os pacotes para todos nós comermos juntos, mas a nossa fome foi maior e acabamos comendo antes mesmo de chegarmos ao local combinado para o encontro de nosso grupo, comendo as bolachas me senti mal, era muita bolacha só para mim e Ricardo, mas demos conta e comemos tudo por fim. Rimos da situação, e eu pensei que aquilo seria a única coisa a dar errado naquela noite, devo dizer a vocês que estava infelizmente enganado.
Aos poucos todos iam chegando, o horário combinado não foi respeitado, mas mesmo assim ninguém faltou. Ao percebermos que o movimento na rua diminuía decidimos que aquele era o melhor momento para irmos para o local da nossa festa. O detalhe era que teríamos que entrar sem ninguém nos ver, Christina afirmava que se caso isso acontecesse nunca mais iria ter a confiança da sua tia, e nós não queríamos isso. O plano, então, era um de cada vez entrar na casa, iria demorar um pouco, mas pelo menos não haveria perigo ou risco de alguém nos ver. Primeiramente foi eu e Christina na frente, fomos abrir a casa para facilitar a entrada de nossos amigos, depois na teoria teria que vim Karina, mas o tempo passou e nada de vermos ela vindo, resolvi ir novamente no local onde eles estavam para saber o motivo da não ida de Karina. Descobri que ela ainda estava esperando um sinal nosso da casa, nem me expliquei e mandei a menina ir em frente, passaram uns três minutos e lá foi Vanessa toda nervosa rumo ao local combinado, e quando me preparava para mandar o Ricardo rumo a casa espantei-me ao ver Karina e Vanessa vindo de volta com as caras todas assustadas. Perguntei o porquê da volta delas e as mesmas apenas me disseram:
- A Christina nos mandou voltar, disse que havia alguém nos observando. Tentamos entrar, mas ela fechou a porta, ficamos com medo porque parecia que realmente tinha alguém acompanhando nossos movimentos e foi por isso que resolvemos fazer isto.
Fiquei sem reação ao ver Vanessa relatando aquilo, pensei apenas comigo: “Como pode existir pessoas tão idiotas que não conseguem entrar em uma casa sem que ninguém os possa ver? Será que ninguém mais assiste filme de espiões?”
Naquele momento da noite já começava a ficar nervoso, irritado e com pouca paciência, parecia que só eu estava preocupado em entrar naquela casa. Enquanto pensava em uma maneira das meninas, Ricardo e eu entrarmos o resto do grupo ria do que estava acontecendo, todos sabiam que o planejado estava dando errado, mas não via graça naquilo. Porém, agora que relato esse episódio para vocês acho gargalhadas daquela noite, não é à toa que dizem: “Vai chegar um dia que vamos sorrir muito desse dia.”
Vanessa, Karina, Ricardo e eu ficamos um bom tempo ali olhando um para cara do outro, a desanimação tomou conta de nós e o sono já começava a se manifestar em mim, me assustei quando vi Christina vindo em nossa direção, a incerteza causada pela vinda da que parecia, até ali, ser a responsável por aquele nosso momento tomou conta de mim e acho que de todos, se ela desistisse automaticamente tudo que havíamos planejado seria cancelado. Christina chegou até nós e disse com a voz baixa:
- Bem, acho que agora fica meio difícil vocês entrarem pela porta da frente na casa, a única maneira é vocês entrarem pela parte de trás.
- Mas como vamos chegar na parte de trás da casa Christina? – perguntou Karina curiosa.
A única maneira era atravessar um campo que estava tomado pela escuridão e pelo mato, e agora? O passaporte para nossa diversão era vivenciar o medo profundo. A ideia era assistir um filme de terror na casa, mas na verdade já estávamos vivendo um filme de terror incrível, e um filme dos bons diga-se de passagem.
Não deixem a dúvida tomar conta das cabeças de meus amigos e logo os animei dizendo:
- Não viemos para desistir agora, se essa é a única opção então que seja. Vamos em frente parceiros.
A animação voltou a reinar ali, aos risos e angústias enfrentamos o medo e o escuro encarando de frente aquele campo sombrio.  Eu era o último da fila que se formou, com certeza parecia ser o que estava mais com medo, naquela noite vivenciei o que um ladrão sente ao tentar roubar uma casa. Avançávamos mato a dentro com os nossos próprios risos como música de fundo e trilha sonora da nossa aventura, naqueles instantes tudo de ruim passava por minha cabeça, só em imaginar o que poderia ter acontecido fico tremulo.
Alguns minutos depois já estávamos entrando no quintal da casa, Ricardo havia quebrado uma parte da cerca para entrar em uma casa pela primeira vez na vida, e Vanessa estava com dois homens no meio do mato pela primeira vez também. Ao chegarmos na porta de trás da casa o sentimento de dever cumprido estava completo, mas sabíamos que ainda teríamos que assistir um filme de terror e beber toda aquela bebida comprada com tanto esforço por nós. Estávamos esperando ansiosos por Christina, não víamos a hora de ela abrir a porta e no deixar entrar para curtir a noite que até ali estava sendo louca, porém queríamos mais loucuras.
Ouvimos a porta sendo aberta, e quando a luz bateu em nossos rostos vivos ela sorridente bater de frente com uma grade, tentou abrir com as chaves que tinha na mão e depois de tentativas frustradas, falou da maneira mais fria possível:
- Acho que eu não tenho a chave que abre essa grade gente!
Um silêncio ensurdecedor tomou conta dali e olhando fixamente para ela, perguntei:
- Você está falando sério mesmo Christina?
 Ela me confirmou e naquele momento pensei em terminar tudo que acontecia entre nós dois até ali, não queria ter um relacionamento sério com alguém tão idiota assim. Minha raiva foi maior que tudo e sem deixar Christina ainda procurar a chave por algum lugar convidei quem estava comigo para me acompanhar de volta de onde viemos. Por alguns momentos pensei que minha noite havia acabado ali, daquela forma tão desanimadora.
Voltamos todos chateados, mas rindo do que já havíamos feito até então, atravessávamos o campo sem preocupações quando me bateu uma vontade enorme de desabafar minha decepção e sem pensar gritei:
- DEMÔNIO! DEMÔNIO! DEMÔNIO!
Depois que gritei sai correndo e só ouvia o resto do povo desesperado correndo atrás de mim, Vanessa havia caído pelo caminho na hora da gritaria e Karina corria com a cor De sua pele amarela devido o susto. Saímos na rua todos sério e alguns metros depois as gargalhadas foram generalizadas, foi assim que íamos conversando, e cada vez que via a lembrança do que já havia acontecido naquela noite as risadas voltavam, cada vez mais intensas. A decepção de alguns momentos antes dava lugar a alegria de saber que fizemos altas loucuras juntos, e que mesmo se aquela noite acabasse ali iriamos ter muitas histórias para contar, mas a noite não acabou ali ela apenas estava começando para nós.

Começamos a pensar em um novo local para bebermos, fomos para a casa de um amigo nosso e lá foi outro show de momentos ótimos e hilariantes, foram circunstâncias incríveis. Sinceramente nunca irei esquecer daquela noite, foi a última noite ao lado de meus amigos naquela fase da minha vida, mas em compensação foi a melhor sem sombra de dúvidas. Foi uma noite que só não foi inesquecível no título desse conto, disso eu tenho certeza.

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